sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Os Sons de Siena




A Primavera traz quase sempre novos sons aos dias

Os passarinhos que cantam (alguém imaginou logo a Aurora que passeia ligeira pelo bosque?), os adolescentes que falam e riem mais alto pelos corredores das escolas e nas paragens de autocarro, as andorinhas que enchem os céus de ti-ti-ti. Para quem se diverte a observar as pessoas que passam não passará despercebido que a Primavera também é uma época de estranhas passerelles: nas ruas agora mais afoladas cruzam-se casacos com sandálias, botas e t-shirts, calções e collants de lã, como se algumas pessoas ainda não tivessem saído do Inverno, e outras já tivessem entrado no Verão.
Siena é uma cidade de urbanização medieval-renascentista afolada dentro de uma cintura de muralhas com sete portas. Coroa um dos muitos montes da Toscana e em seu redor espreguiçam-se longas paisagens onduladas que a Primavera carrega de verde brilhante e de vivas cores floreais.

Apesar das suas peculiaridades, também em Siena os adolescentes falam mais alto na Primavera e as andorinhas enchem os céus de acrobacias musicais: ti-ti-ti ti-ti-ti. São aos milhares. Descendo até à Piazza del Campo ao fim do dia, o azzurro forte do céu é o cenário perfeito para este bando de pequenos arautos da luz e das flores. Das janelas dos prédios centenários é vê-las dançar em perfeita sintonia por entre torres alaranjadas, chaminés e telhados.

Mas em Siena, as Andorinhas não são os únicos arautos da Primavera. Nas sinuosas estradinhas toscanas, perdidas entre o verde do milhos, o roxo da lavanda ou o amarelo forte dos girassóis, as motas – hibernadas em garagens mais ou menos arejadas durante todo o rigoroso Inverno – saem à rua em zumbidos musicais. A mim dá-me sono, mas vejo que são portadores de grande vitalidade, vejo-o nas faces avermelhadas dos casais vestidos de cabedal negro ou cinzento que passeiam pelas quelhas estreitas e agora solarengas, uma pausa nas suas peregrinações primaveris.
Andorinhas e motas.

Em Siena, o verdadeiro rei dos arautos da Primavera, o som que ribomba por toda a cidade anunciando com pompa e circunstância a chegada da Primavera, do sol, do bom tempo, esse é, ou melhor, são os tambores. Todas as contrade iniciam os cursos de tambores. Os rapazes saem à rua e praticam as “tamboradas” o ritmo é quase sempre o mesmo catum-catum-catum-tum-tum. Os padroeiros de cada contrada (bairro medieval), não por acaso são todos na primavera e verão, e nesses dias é vê-los vestidos de pompa e circunstâncias a desfilar pelas ruas (visitando as outras contrade que lhes servem lanchinhos) ao som dos tambores. Em cada recanto da cidade, em cada pedaço de verde nos persegue este catum-tum-tum, para uns irritante, mas que fechando os olhos, ou deixando-os um bocadinho de nada abertos (como na praia quando nos viramos para o sol), a  luz dourada reflectida no laranja das casas de janelas verdes e no verde potente dos campos ao longe, é a música de fundo perfeita para este ambiente, uma porta mágica para uma viagem no tempo, um acesso privilegiado a uma corrente de deambulações mentais.

Agora vai-se fazendo anunciar o Outono, o alter-ego da Primavera. Coexistem pelas ruas e ruelas botas e sandálias, calções e chapéus de chuva, mas as andorinhas já foram cantar para outros continentes, os tambores arrumaram-se empilhados nos arrumos das contrade e as motas foram estacionadas nas garagens, cobertas com longas mantas de sono.
Nas vitrines das lojas cachecóis e longos sobretudos tiram as dúvidas, o Outono está a chegar. Ainda podemos sair sem meias, sair sem chapéu de chuva, mas as ruas fecham mais cedo e já jantamos sem o Sol.

Adeus andorinhas e tambores, adeus motas e verdes colinas, adeus calor que no rosto que nos transportas à infância e a sonhos nunca vividos, adeus saias descomprometidas e tops ligeiros, adeus longos passeios depois de jantar para colher aquele pouco fresco, adeus pés nus na areia. Adeus adeus, até para o ano.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

As Guerras das Mães




Apercebi-me cedo das guerras das mães. Durante a gravidez os acesos debates esgrimiam argumentos pró e contra epidural, cesariana ou parto natural. Dum lado as “pró-parto sem dor” e do outro “let’s do it natural”. Em vez de se alegrarem com a possibilidade de uma escolha (inexistente por exemplo da geração das nossas avós), as mães e profissionais de saúdes constroem autênticas trincheiras armadas em torno das suas preferências, ridicularizando ou minimizando as escolhas das “outras”.

Mas a verdadeira guerra começa depois do nascimento e muitas vezes com o leite, ou melhor, com a amamentação. Existem as mães do centro da curva de Gauss, que amamentam alguns meses mais ou menos até ao período do desmame (4-6meses), existem as mães que amamentam de 1 a 2 anos (seguindo mais ou menos as indicações da OMS), existem as mães que gostariam de amamentar mas não podem por problemas vários, existem as mães que não querem amamentar. Além destas existem todos os outros cambiantes que se podem imaginar.

Normal, não? A única coisa “anormal” é a guerra entre as facções mais ou menos extremas das que querem amamentar o mais possível e as que querem amamentar o menos possível ou nada.

Já há algum tempo que andava a matutar nestas coisas, mas a malvada crónica publicada pelo Público de uma tal Sofia Anjos (http://lifestyle.publico.pt/artigos/324603_as-maes-nao-se-medem-as-mamadas) empurrou-me para a catarse escrita. A senhora é mãe de um bebé de três meses e meio e tem-lhe dado para escrever sobre a experiência, não é a única. O problema (a ser um problema) é que pelo menos nesta crónica, tem uma capacidade de análise muito reduzida. Ao longo de uma página e meio de bocas disparadas a torto e a direito contra as adeptas da amamentação prolongada, escreveu uma só frase com a qual posso concordar: Sou a favor da amamentação para quem o queira fazer, mas dá-me algum formigueiro toda a panóplia de dissertações que colocam a amamentação num pedestal como se isso definisse o tipo de mamã que vais ser.
E aqui tem razão. Existem realmente algumas mamãs fundamentalistas da amamentação que parecem crer que é preciso amamentar até aos 3 anos para que o miúdo não se desintegre e transforme num psicopático inseguro ou por aí perto e que projectam essa paranoia sobre as outras mães. Sinto até alguma empatia por uma mulher que decidiu parar de amamentar aos 3 meses por motivos que só a ela dizem respeito (que pelo que me toque pode ser um simples não gosto) e que sofre com os habituais conselhos não pedidos que começam ao terceiro mês de gravidez. Mas minha senhora, aprenda lá a lidar com isso.

Porque na verdade o que a Sra. Anjos faz é exactamente o mesmo que fazem as senhoras de quem se queixa, mas em Público e com uma capacidade de ridicularizar quase boçal. E é aqui que entro em choque frontal com a cronista. Não é verdade como afirma ela que de momento está na moda amamentar até muito tarde. É uma corrente relativamente recente e minoritária e que tem vindo a ser apoiada pela OMS que tenta desmontar os mil e um mitos associados à amamentação e encorajar as mamãs a amamentar superandos os momentos difíceis associados (sim, é uma coisa muito natural, mas muito mais difícil do que se poderia imaginar).

Para obter um bom resultado na ridicularização, a Sr. Anjos usa expressões como ganha quem esguichar mais, ou frases acusativas como Estão-se nas tintas (as mães “fundamentalistas” que amamentam) se o bebé da outra vai ter todos os nutrientes, querem é saber se se portaram melhor que as outras. Uma das piores para mim (e ninguém contesta que o seu sentido de humor sarcástico tem uma certa piada) é que a amamentação para lá dos 6 meses é para mulheres cujos empregos têm boas casas de banho, aqui o nível baixa muito, como se já não bastasse as dificuldades associadas a continuar a dar de mamar quando se volta ao trabalho (para aquelas que têm um trabalho para onde voltar) a Sra. Anjos ainda usa uma metáfora que mete o tirar leite quase ao nível da punheta do intervalo do café, como se fosse uma coisa vergonhosa. Não sei este é um dos motivos pelos quais a Sra deixou de amamentar, a vergonha, e sinceramente não tenho nada a ver com isso, mas é muito feio, numa sociedade tão avessa à maternidade sentir-se no direito de publicamente fazer este tipo de comparações, principalmente quando se é mulher (mas como já disse noutras deambulações, não faltam por aí as mulheres machistas).

Continuamos com outras pérolas como o uso da palavras “tetas” para se referir às mamas, uma clara comparação da mulher que amamenta a uma vaca leiteira (bonito…) e por fim o cereja sobre o bolo: quanto aos pais, as mães pouco os deixam mamar nesta fase. À parte o mau gosto da frase (mas isso é só a minha sensibilidade pessoal) a frase irónica ilude certamente ao facto que durante a amamentação a mulher produza prolactina, a hormona que induz a produção do leite mas que tem o efeito colateral de baixar a líbido sexual. Talvez este tenha sido também um dos motivos para deixar de dar mama ao seu filho: “deixar mamar o seu homem”, espero que o não tenho feito por obrigação ou de uma maneira assim tão passiva como o verbo “deixar” insinua. E pergunto-me também se andou a perguntar às mães que dão mama se deixam “mamar” os homens e com que frequência, mas enfim, mais uma vez, não são assuntos que me digam respeito.

É uma pena que as mulheres se façam isto. É uma pena que as educadoras digam às mães que já é hora de parar de mamar, e que as mães que amamentam façam as que não amamentam sentir-se diminuídas. É uma pena as que decidem não dar de mamar ridicularizem as mães que amamentam e principalmente o esforço que isso implica. Enfim. É uma pena que não possamos simplesmente tomar as nossas decisões de forma informada e em paz com a nossa consciência, sem termos que passar por vexames e perseguições sociais quase sempre perpetuados por outras mulheres. É também uma pena que muitas mulheres e muitos homens continuem a achar que isto são assuntos exclusivos das mulheres, como se as mulheres tivessem os filhos sozinhas.
Enfim.

Quais serão as próximas guerras? Dar primeiro a cenoura ou a maçã? Coca-cola aos dois ou aos quatro anos? Telefone aos 6 ou aos 12 anos? Comprar-lhe a moto ou não? Haja paciência…
Permitam-me desta vez a mim dar um conselho não pedido: make love, not war ;-)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O tempo depois de Tiago




Quinze de Julho. De dois mil e treze. Quinze de Julho.
O tempo agora tem outro significado. Dois mil e treze será sempre um ano mágico, mitológico, o ano da Criação.

No dia 20 de Maio de 2013 saí do hospital de Poggibonsi. Cesco subiu até ao nosso andar com o carrinho de bebé apenas tirado da caixa. Estendemos lá dentro um pequeno lençol que uma das avós tinha feito. Deitamos lá dentro o Tiago. O Tiago. Gosto de passear este nome entre a língua e os dentes como fazia em criança com as palavras novas. Tiago. Gosto de sentir as cócegas que o ar me faz no céu da boca quando me demoro no g, para prolongar esse sabor na boca. Tiago.

Chovia de um céu cinzento e carregado. Eu sentia-me exausta mas excitada. Íamos para casa. Ao fim de meia-hora chegámos a Siena e começámos a subir a colina que entre o verde molhado nos leva à porta San Marco, porta por onde invariavelmente entramos na cidade. As curvas obrigam a uma diminuição da velocidade que é favorável à admiração da paisagem. Tinha uma sensação estranha, como se faltasse qualquer coisa. Faltavam as salvas, as pétalas de flores, os vivas e os tambores. Irritava-me que o mundo não tivesse saído à rua para saudar aquele milagre… como era possível que não o tivesse feito? Foi ali que me apercebi que nunca ninguém olharia para o Tiago como eu e o Cesco. Que aquilo era mais do que amor, mais do que eu poderia imaginar ou descrever.

A chegada a casa também não foi envolvida na magia que eu almejava. Um parto antecipado apanhara-nos um pouco de surpresa, e apesar de não faltar nada importante, muitas coisas ainda estavam nos caixotes. O pai tinha três dias para estar em casa, mas em vez de uma calma e tranquila entrada a 3 no ninho, havia coisas para arrumar e burocracias várias para tratar. A chuva e o vento contribuíam para a sensação de alienamento. E depois o dia a dia, o novo dia a dia.

Durante toda a minha gravidez nos bombardearam com frases do tipo aproveita agora para: dormir, ir ao cinema, descansar, namorar, ir jantar fora, cuidar de ti, etc. Qualquer pessoa inteligente percebe que ter um bebé em casa implica uma grande quantidade de trabalho e muitas noites sem dormir. É uma coisa que toda a gente sabe. Mas se uma pessoa sem filhos (e que não conheça bem pessoa com filhos) parar para pensar porquê, provavelmente descobre que não percebe lá muito bem a razão.
A razão é que os recém-nascidos precisam constantemente de atenção e dividem as 24 horas do dia em várias pequenas parcelas. Por exemplo dormem duas horas, e depois precisam de outras duas de atenção – em que será difícil fazer qualquer outra coisa. Na prática, isto significa que os pais dificilmente conseguem dormir mais dos que três/quatro horas seguidas, e que não conseguem executar  tarefas que durem mais do que uma hora, o que já é uma sorte. Se a mãe amamentar, significa que a cada duas/três horas terá que largar tudo para alimentar o pequenote cerca de 15min a meia-hora. Nunca imaginei que amamentar cansasse tanto. Na verdade as calorias gastas por dia com o amamentar são equivalentes a 40minutos de corrida, sem o exercício muscular, mas com uma considerável perda nutritiva para a mãe.

Enfim, é uma nova realidade diária que vira tudo do avesso. A primeira semana em casa foi muito complicada, porque entre a fragilidade física, entrar na nova rotina, aprender a cuidar do Tiago e a conhecê-lo e lidar com a ansiedade do medo constante de não estar a fazer as coisas bem, foi quase impossível encontrar um bolha de ar fresco (e aqui faço um parêntesis para sublinhar que as mães solteiras têm todo o meu respeito). Depois, dia após dia, as coisas começaram a melhorar.

Hoje olho para o meu pequenote e vejo o quanto já cresceu. Sinto muitas vezes um nó de emoção na garganta, como se me fosse realmente permitido assistir a um milagre. Não posso evitar a sensação ambígua de nostalgia e orgulho pelo seu crescimento. Já tenho saudades de quando era tão pequenino que cabia todo em cima da minha barriga, e ao mesmo tempo sinto uma curiosidade imensa pelas coisas que ainda estão para vir, o primeiro abraço, a primeira palavra.

Olho para este ser pequenino e apercebo-me mais uma vez de quanto é complexa e especial a vida. Esta cria foi biologicamente concebida para ser amada por mim. Tratar dele dá demasiado trabalho e implica um gasto energético demasiado elevado para ser suportado por um imperativo genético. Então, a evolução garantiu que ele fosse desenhado para suscitar amor e sentimentos de protecção. Olhos grandes, nariz pequenino, bochechas redondinhas, como qualquer ursinho de peluche. E cada vez que o pego ao colo e sinto o seu cheiro, cada vez que o levo ao seio para o alimentar, cada vez que o observo enquanto dorme, eu sinto-me completamente inundada de um amor ansioso que nunca tinha experimentado antes, e sinto uma grande compreensão por todas as fêmeas capazes de abocanhar quem quer que seja que se aproxime das suas crias.

Além das hormonas que me constringem a este amor cego, uma outra coisa que ajuda a suportar muito bem as fadigas de cuidar de um recém-nascido é que o Tiago é uma fonte inesgotável de risos. Caretas e carantonhas, ginásticas improváveis, concertos de peidinhos nas situações mais imprevisíveis, arrotos de homem grande e outras diversões.

O Tiago é a humanidade em estado puro, sem filtros e sem artimanhas. Todo ele é necessidades primárias, e comer é tão importante como ser mimado. Quando lhe demos o primeiro banho apercebi-me que apresenta já aquela dualidade humana que caracteriza a nossa natureza e a nossa História: curiosidade e receio pelo desconhecido: assim que lhe pusemos o rabinho dentro de água, o Tiago abriu os pulmões e começou a chorar estridentemente. Pouco a pouco, a sua expressão começou a mudar (mantendo sempre um certo ar desconfiado) e acabou por se acalmar e relaxar. Naquele momento pensei em Fernando Pessoa e em como ele definiu genialmente a aproximação instintiva do ser humano ao desconhecido: primeiro estranha-se, depois entranha-se.
Também este bebé se vai entranhando em mim. Chegará o dia em que resmungará embaraçado se lhe der um beijo, mas por agora – talvez um bocadinho graças às hormonas – eu e ele somos indivisíveis, somos um só ser, e eu – numa dimensão fisiológica que me corre no sangue e que está impressa nos meus genes – nos próximos meses existo para ele, para o alimentar, mimar, tratar, até que ele seja pessoa e nós voltaremos a ser dois.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Parto




Diz-se que muitas mulheres não se recordam bem do seu parto, ou que guardam dele uma imagem distorcida, confusa. Uma das principais culpadas desta espécie de amnésia do parto é a endorfina, produzida em quantidades consideráveis pela mulher durante o parto. A endorfina é uma espécie de morfina natural que aumenta a resistência à dor (se assim não fosse a maioria das mulheres perderia os sentidos durante o parto, já que a dor real estimada do mesmo é aproximada à da amputação de uma perna), aumenta a resistência dos vasos sanguíneos, aumenta a resistência física e psicológica e a capacidade de concentração; também induz alterações na percepção do tempo, ou seja, durante o parto a mulher está com uma grande moca natural. E ainda bem, acrescento.
Dada a experiência avassaladora que foi para mim, antes que a memória e o tempo me comecem a pregar partidas, queria descrevê-la, gravá-la em palavras escritas. Algumas coisas já se começaram a perder, mas com a ajuda do Cesco consigo recordar-me de quase tudo.

Antes de entrar propriamente no cerne da questão, gostaria de fazer uma pequena introdução técnica ao “mundo-secreto-das-grávidas”. Há que saber que a data prevista do parto é marcada para o fim da 40ªsemana depois da última menstruação da mulher. Um bebé nascido depois da 36ªsemana já não é prematuro porque já está plenamente formado, falta só crescer mais um bocadinho. Quando o parto se aproxima, o colo do útero – até ali fechado – começa a abrir, é a famosa dilatação que é máxima aos 10cm. Para abrir o colo do útero, o útero deve contrair (por sua vez as contracções uterinas são em parte provocadas pela oxitocina, hormona do “amor”, dos “miminhos”) forçando a abertura do colo e mais tarde a descida do pequenito.

O trabalho de parto divide-se grosso modo em três fases caraterizadas pelo tipo de contrações. A primeira fase é uma fase anárquica, em que as contrações são relativamente suportáveis, esporádicas e de intensidade variável. É uma fase de preparação do colo e que pode demorar várias horas mas também alguns dias. Durante esta fase o colo do útero tende a dilatar cerca de 2cm.
A fase seguinte é a do trabalho de parto activo, aqui as contrações são muito seguidas (menos de 5minutos de intervalo) e longas (mais de 40seg). Demora em média 6-8horas e as contrações aumentam de intensidade até à dilatação completa. Quando se está com dilatação completa (mais ou menos 10cm) começa a fase do parto propriamente dito ou fase expulsiva. Aqui a tipologia de dores muda, e as contrações são acompanhadas de uma forte vontade de “empurrar” (na verdade uma sensação assustadoramente semelhante à urgência em ir à casa-de-banho). Esta fase pode demorar de alguns minutos a 2 horas.

Depois desta introdução, vamos ao que interessa, quem não tem o mínimo interesse em saber como foi o meu parto, este é o momento de parar de ler

Depois de um dia no passeio, continuo a sentir pequenas perdas de líquido. Sei que a ruptura das membranas é um alerta vermelho e que significa ir imediatamente para o hospital, mas as minhas perdas são tão poucas e espaçadas  que quase me convenço de ter desenvolvido uma espécie de incontinência gravídica. De qualquer maneira ao fim do dia atinjo o meu limite de especulação e decido ir ao hospital fazer a habitual figura triste dos futuros-novos-papás que não percebem patavina do que se está a passar. Em vez de ir ao hospital mais perto, decido-me por aquele a meia-hora de casa, onde eu gostaria de parir e, porque nunca se sabe, meto as malas no carro.

Chego ao hospital às 21h00 e as obstetras ligam-me imediatamente à máquina que permite controlar o batido cardíaco do meu filhote apressado. Tudo ok. “Visitam-me” (é este o termo técnico italiano, parece-me muito apropriado para a situação em que uma médica te enfia os dedos naquele canal para ver o que é que se passa) e além de 2cm de dilatação (na norma) tenho nitidamente uma ruptura pequenita nas membranas. Ora aqui vai um antibiótico depois de três furos nos braços (as veias estavam escondiditas…).

No meio deste lufa-lufa apercebemo-nos que já não volto a casa tão cedo. O Cesco, por outro lado, não pode ficar porque tecnicamente não estou em trabalho de parto activo e não há nenhum quarto vazio (os quartos são duplos).
Levam-me para o meu quarto onde me espera uma convidativa cama de hospital ao lado de uma neo-mamã senegalense rodeada pela sua família numerosa. O terror invade-me. Se há coisas para as quais não estou preparada no momento é ter que afrontar público, olhos  curiosos ou indiscretos. Passa das 22h00 e o Cesco sai em busca de jantar. Naquele quarto cheio de gente que come comida com perfume de outros continentes a solidão invade-me como uma mão pesada e sufocante sobre o ombro. O buraquinho do meu saco amniótico era tão pequeno e as minhas contrações tão insignificantes que as obstetras e a ginecóloga estão convencidas que daí a umas 12 horas terão de me induzir o parto. Com a indução do parto lá se vai o meu “percurso de parto doce”, com o super apartamento com banheira de parto, atmosfera íntima e aconchegante. Não é exactamente o início que eu tinha desejado.
Finalmente chega o Cesco e com ele uma lufada de ar fresco, o sentido das coisas. A família da minha companheira de quarto retira-se. Com esta espécie de bolha de intimidade eu e o futuro pai comemos, conversamos e rimos. Estamos sempre a tempo de relativizar a questão e de troçar das nossas certezas apenas demolidas.
Mas também este momento de calor é destinado a acabar e o Cesco volta para casa.

Na minha cama de hospital, demasiado alta e estreita para me ser familiar as trevas descem de novo sobre o meu humor. Toda eu sou este coração enorme que bombeia ruidosamente, não sinto mais nada, todo o meu corpo se encolheu dentro desta muralha musculosa e incessante. O medo é tão forte (medo de quê?) que a única forma segura para o aguentar é sair dele e olhá-lo de fora, racionalizá-lo, gozá-lo um bocadinho. Chegam algumas mensagens de longe que me trazem conforto, é tudo normal, natural, regular, até mesmo o medo. Durmo quase uma hora, depois o choro do recém-nascido da cama ao lado traz-me de volta àquela cama estranha. Sinto-me exausta, esgotada, mas não consigo sequer manter os olhos fechados.

Às quatro da manhã começam algumas daquelas dores que agora sei serem contrações. Boa, penso. Ao menos é algo com que me entreter. Levanto-me e começo a andar para a frente e para trás no corredor, cronometrando as contrações e os intervalos entre elas. Sinto-me produtiva, sinto que tenho o controlo. Quando as contrações me parecem suficientemente regulares vou procurar a obstetra. Liga-me à maquineta que controla o ritmo cardíaco do Tiago e a intensidade das contrações. Ajuda-me a passar as mais fortes com palavras doces e uma voz calma, é-me preciosa a sua companhia. Depois “visita-me”: 3cm de dilatação, falta muita estrada. Como estou muito cansada, aconselha-me a ir para a cama e tentar dormir entre as contrações. São 5horas e telefono ao Cesco: começou, mas ainda vai demorar, vem com calma.

Durante um hora e meia (que sinceramente me pareceu muito menos) sinto as contrações a aumentarem “pouco a pouco” de intensidade. Forço-me a recordar todas as técnicas aprendidas no curso pré-parto: respiração, vocalização, visualização… em muitas contrações sinto-me completamente perdida, alienada, era só aquela dor alucinante que me domina o corpo e me empurra a cabeça para trás, como se tivesse necessidade de se separar do resto d corpo (merda, que ideia tão estúpida esta de não querer a epidural!). Às vezes o controlo volta, em lampos de lucidez, e por momentos acalento a ilusão de poder controlar a dor, vergá-la à minha vontade. Às tantas vejo-me chegar ao meu limite, vi-o nitidamente diante de mim e ligo às obstetras: não consigo continuar sozinha (murmurei ou gritei?).

Chegam três obstetras que eu não conheço (era a mudança de turno) e contemporaneamente o Francesco. Volto a sentir um grande alívio. As obstetras falam um bocadinho comigo e voltam a sair, voltarão um pouco depois para ver como estou (havendo 3cm de dilatação há apenas uma hora e meia, a experiência diz-lhes que ainda falta…).
A par com as dores invade-me um calor insuportável, não consigo suportar encostar-me a nada e nem mesmo uma carícia. Volto ao corredor, desta vez com o futuro-pai ao meu lado. Durante as contrações apoia-me fisicamente já que é impossível manter-me em pé, mas não há muito mais que possa fazer. 

De repente tenho uma vontade monstruosa de ir à casa de banho. Amaldiçoo esta partida da natureza, que raio de momento. Assim que me sento na sanita e tento chamar a mim as poucas reservas de capacidade de raciocínio que ainda tenho (não era uma situação fácil de gerir) apercebo-me que não era vontade de ir à casa de banho, era o Tiago a querer sair. A minha cabeça grita impossível (sei que ainda faltam tantas horas!) e consigo pedir ao Francesco para chamar as obstetras com urgência. Chega uma imediatamente que me controla o colo do útero: estás pronta! Não é possível, exclamo, desta vez em voz alta, quanto tenho de dilatação? Tudo, dilatação completa minha querida, vamos para a sala de parto.

Apesar dos meus protestos intensos a obstetra e o Francesco conseguem meter-me em cima da minha cama. A esta altura todas as noções de pudor se tinham completamente desvanecido e eu estava pronta para atravessar os vários corredores nua tal era o calor que tinha. Lá aceitei que me cobrissem o corpo com um lençol e daí a pouco estava na sala parto com a obstetra a tentar convencer-me a ir para o banco holandês (para quem não faz ideia do que isto seja: http://www.mipaonline.com/wp-content/uploads/2012/07/sgabello-olandese.png) enquanto eu resmungava que não queria sair da cama. A obstetra era boa, e lá me deu a volta. Sentei-me no banquinho, apoiada nas pernas do Francesco que estava sentado numa cadeira atrás de mim. E lá vou eu. Nem queria acreditar. As dores acalmaram um bocadinho, não que não doesse, mas agora as contrações eram acompanhadas pelo enorme esforço de empurrar e isso de qualquer maneira aliviava-me.

Muita gente me disse que no momento do parto, saber que o teu filho está a chegar é uma grande alegria que ajuda a passar o momento. Muito sinceramente, naquele momento eu estava-me a marimbar para isso. Empurrava para que tudo acabasse, para poder beber um copo de água e dormir um bocadinho, não me importava nada do garoto.
Até que ele saiu, cinzento, resmungão, de braços e pernas abertas como um esquilo voador, e a obstetra mo pôs assim como veio ao mundo em cima da minha barriga. O mundo parou. Senti que era uma espécie de máquina fotográfica e que as minhas lentes e diafragma se reajustavam. Uma injecção imaginária de energia e repouso fez-me relaxar de um modo incrível, como se alguém retirasse de cima de mim aquele cansaço dorido e insuportável. Não era horrível. Não era feio. Não era nada do que eu esperava, e era o meu filho – eu tinha um filho! Demorei algum tempo a “voltar” à sala e a perceber o que se passava à minha volta. A obstetra conduziu-me para uma marquesa – sempre com o meu filho – onde me tirou a placenta e deu os pontos. Foi uma dor horrível, mas eu desprezei-a.

Meteram-me noutra cama e, por duas horas, com o Francesco em êxtase ao meu lado, fizemos o primeiro “pele-a-pele”, a primeira mamada e eu tornei-me mãe. E desde esse momento até agora, se me permito de pensar muito nisso, não consigo evitar as lágrimas de alegria, medo do futuro, incrédula admiração por esta magia poderosa.

Bem vindo Tiago.