segunda-feira, 15 de julho de 2013

O tempo depois de Tiago




Quinze de Julho. De dois mil e treze. Quinze de Julho.
O tempo agora tem outro significado. Dois mil e treze será sempre um ano mágico, mitológico, o ano da Criação.

No dia 20 de Maio de 2013 saí do hospital de Poggibonsi. Cesco subiu até ao nosso andar com o carrinho de bebé apenas tirado da caixa. Estendemos lá dentro um pequeno lençol que uma das avós tinha feito. Deitamos lá dentro o Tiago. O Tiago. Gosto de passear este nome entre a língua e os dentes como fazia em criança com as palavras novas. Tiago. Gosto de sentir as cócegas que o ar me faz no céu da boca quando me demoro no g, para prolongar esse sabor na boca. Tiago.

Chovia de um céu cinzento e carregado. Eu sentia-me exausta mas excitada. Íamos para casa. Ao fim de meia-hora chegámos a Siena e começámos a subir a colina que entre o verde molhado nos leva à porta San Marco, porta por onde invariavelmente entramos na cidade. As curvas obrigam a uma diminuição da velocidade que é favorável à admiração da paisagem. Tinha uma sensação estranha, como se faltasse qualquer coisa. Faltavam as salvas, as pétalas de flores, os vivas e os tambores. Irritava-me que o mundo não tivesse saído à rua para saudar aquele milagre… como era possível que não o tivesse feito? Foi ali que me apercebi que nunca ninguém olharia para o Tiago como eu e o Cesco. Que aquilo era mais do que amor, mais do que eu poderia imaginar ou descrever.

A chegada a casa também não foi envolvida na magia que eu almejava. Um parto antecipado apanhara-nos um pouco de surpresa, e apesar de não faltar nada importante, muitas coisas ainda estavam nos caixotes. O pai tinha três dias para estar em casa, mas em vez de uma calma e tranquila entrada a 3 no ninho, havia coisas para arrumar e burocracias várias para tratar. A chuva e o vento contribuíam para a sensação de alienamento. E depois o dia a dia, o novo dia a dia.

Durante toda a minha gravidez nos bombardearam com frases do tipo aproveita agora para: dormir, ir ao cinema, descansar, namorar, ir jantar fora, cuidar de ti, etc. Qualquer pessoa inteligente percebe que ter um bebé em casa implica uma grande quantidade de trabalho e muitas noites sem dormir. É uma coisa que toda a gente sabe. Mas se uma pessoa sem filhos (e que não conheça bem pessoa com filhos) parar para pensar porquê, provavelmente descobre que não percebe lá muito bem a razão.
A razão é que os recém-nascidos precisam constantemente de atenção e dividem as 24 horas do dia em várias pequenas parcelas. Por exemplo dormem duas horas, e depois precisam de outras duas de atenção – em que será difícil fazer qualquer outra coisa. Na prática, isto significa que os pais dificilmente conseguem dormir mais dos que três/quatro horas seguidas, e que não conseguem executar  tarefas que durem mais do que uma hora, o que já é uma sorte. Se a mãe amamentar, significa que a cada duas/três horas terá que largar tudo para alimentar o pequenote cerca de 15min a meia-hora. Nunca imaginei que amamentar cansasse tanto. Na verdade as calorias gastas por dia com o amamentar são equivalentes a 40minutos de corrida, sem o exercício muscular, mas com uma considerável perda nutritiva para a mãe.

Enfim, é uma nova realidade diária que vira tudo do avesso. A primeira semana em casa foi muito complicada, porque entre a fragilidade física, entrar na nova rotina, aprender a cuidar do Tiago e a conhecê-lo e lidar com a ansiedade do medo constante de não estar a fazer as coisas bem, foi quase impossível encontrar um bolha de ar fresco (e aqui faço um parêntesis para sublinhar que as mães solteiras têm todo o meu respeito). Depois, dia após dia, as coisas começaram a melhorar.

Hoje olho para o meu pequenote e vejo o quanto já cresceu. Sinto muitas vezes um nó de emoção na garganta, como se me fosse realmente permitido assistir a um milagre. Não posso evitar a sensação ambígua de nostalgia e orgulho pelo seu crescimento. Já tenho saudades de quando era tão pequenino que cabia todo em cima da minha barriga, e ao mesmo tempo sinto uma curiosidade imensa pelas coisas que ainda estão para vir, o primeiro abraço, a primeira palavra.

Olho para este ser pequenino e apercebo-me mais uma vez de quanto é complexa e especial a vida. Esta cria foi biologicamente concebida para ser amada por mim. Tratar dele dá demasiado trabalho e implica um gasto energético demasiado elevado para ser suportado por um imperativo genético. Então, a evolução garantiu que ele fosse desenhado para suscitar amor e sentimentos de protecção. Olhos grandes, nariz pequenino, bochechas redondinhas, como qualquer ursinho de peluche. E cada vez que o pego ao colo e sinto o seu cheiro, cada vez que o levo ao seio para o alimentar, cada vez que o observo enquanto dorme, eu sinto-me completamente inundada de um amor ansioso que nunca tinha experimentado antes, e sinto uma grande compreensão por todas as fêmeas capazes de abocanhar quem quer que seja que se aproxime das suas crias.

Além das hormonas que me constringem a este amor cego, uma outra coisa que ajuda a suportar muito bem as fadigas de cuidar de um recém-nascido é que o Tiago é uma fonte inesgotável de risos. Caretas e carantonhas, ginásticas improváveis, concertos de peidinhos nas situações mais imprevisíveis, arrotos de homem grande e outras diversões.

O Tiago é a humanidade em estado puro, sem filtros e sem artimanhas. Todo ele é necessidades primárias, e comer é tão importante como ser mimado. Quando lhe demos o primeiro banho apercebi-me que apresenta já aquela dualidade humana que caracteriza a nossa natureza e a nossa História: curiosidade e receio pelo desconhecido: assim que lhe pusemos o rabinho dentro de água, o Tiago abriu os pulmões e começou a chorar estridentemente. Pouco a pouco, a sua expressão começou a mudar (mantendo sempre um certo ar desconfiado) e acabou por se acalmar e relaxar. Naquele momento pensei em Fernando Pessoa e em como ele definiu genialmente a aproximação instintiva do ser humano ao desconhecido: primeiro estranha-se, depois entranha-se.
Também este bebé se vai entranhando em mim. Chegará o dia em que resmungará embaraçado se lhe der um beijo, mas por agora – talvez um bocadinho graças às hormonas – eu e ele somos indivisíveis, somos um só ser, e eu – numa dimensão fisiológica que me corre no sangue e que está impressa nos meus genes – nos próximos meses existo para ele, para o alimentar, mimar, tratar, até que ele seja pessoa e nós voltaremos a ser dois.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Parto




Diz-se que muitas mulheres não se recordam bem do seu parto, ou que guardam dele uma imagem distorcida, confusa. Uma das principais culpadas desta espécie de amnésia do parto é a endorfina, produzida em quantidades consideráveis pela mulher durante o parto. A endorfina é uma espécie de morfina natural que aumenta a resistência à dor (se assim não fosse a maioria das mulheres perderia os sentidos durante o parto, já que a dor real estimada do mesmo é aproximada à da amputação de uma perna), aumenta a resistência dos vasos sanguíneos, aumenta a resistência física e psicológica e a capacidade de concentração; também induz alterações na percepção do tempo, ou seja, durante o parto a mulher está com uma grande moca natural. E ainda bem, acrescento.
Dada a experiência avassaladora que foi para mim, antes que a memória e o tempo me comecem a pregar partidas, queria descrevê-la, gravá-la em palavras escritas. Algumas coisas já se começaram a perder, mas com a ajuda do Cesco consigo recordar-me de quase tudo.

Antes de entrar propriamente no cerne da questão, gostaria de fazer uma pequena introdução técnica ao “mundo-secreto-das-grávidas”. Há que saber que a data prevista do parto é marcada para o fim da 40ªsemana depois da última menstruação da mulher. Um bebé nascido depois da 36ªsemana já não é prematuro porque já está plenamente formado, falta só crescer mais um bocadinho. Quando o parto se aproxima, o colo do útero – até ali fechado – começa a abrir, é a famosa dilatação que é máxima aos 10cm. Para abrir o colo do útero, o útero deve contrair (por sua vez as contracções uterinas são em parte provocadas pela oxitocina, hormona do “amor”, dos “miminhos”) forçando a abertura do colo e mais tarde a descida do pequenito.

O trabalho de parto divide-se grosso modo em três fases caraterizadas pelo tipo de contrações. A primeira fase é uma fase anárquica, em que as contrações são relativamente suportáveis, esporádicas e de intensidade variável. É uma fase de preparação do colo e que pode demorar várias horas mas também alguns dias. Durante esta fase o colo do útero tende a dilatar cerca de 2cm.
A fase seguinte é a do trabalho de parto activo, aqui as contrações são muito seguidas (menos de 5minutos de intervalo) e longas (mais de 40seg). Demora em média 6-8horas e as contrações aumentam de intensidade até à dilatação completa. Quando se está com dilatação completa (mais ou menos 10cm) começa a fase do parto propriamente dito ou fase expulsiva. Aqui a tipologia de dores muda, e as contrações são acompanhadas de uma forte vontade de “empurrar” (na verdade uma sensação assustadoramente semelhante à urgência em ir à casa-de-banho). Esta fase pode demorar de alguns minutos a 2 horas.

Depois desta introdução, vamos ao que interessa, quem não tem o mínimo interesse em saber como foi o meu parto, este é o momento de parar de ler

Depois de um dia no passeio, continuo a sentir pequenas perdas de líquido. Sei que a ruptura das membranas é um alerta vermelho e que significa ir imediatamente para o hospital, mas as minhas perdas são tão poucas e espaçadas  que quase me convenço de ter desenvolvido uma espécie de incontinência gravídica. De qualquer maneira ao fim do dia atinjo o meu limite de especulação e decido ir ao hospital fazer a habitual figura triste dos futuros-novos-papás que não percebem patavina do que se está a passar. Em vez de ir ao hospital mais perto, decido-me por aquele a meia-hora de casa, onde eu gostaria de parir e, porque nunca se sabe, meto as malas no carro.

Chego ao hospital às 21h00 e as obstetras ligam-me imediatamente à máquina que permite controlar o batido cardíaco do meu filhote apressado. Tudo ok. “Visitam-me” (é este o termo técnico italiano, parece-me muito apropriado para a situação em que uma médica te enfia os dedos naquele canal para ver o que é que se passa) e além de 2cm de dilatação (na norma) tenho nitidamente uma ruptura pequenita nas membranas. Ora aqui vai um antibiótico depois de três furos nos braços (as veias estavam escondiditas…).

No meio deste lufa-lufa apercebemo-nos que já não volto a casa tão cedo. O Cesco, por outro lado, não pode ficar porque tecnicamente não estou em trabalho de parto activo e não há nenhum quarto vazio (os quartos são duplos).
Levam-me para o meu quarto onde me espera uma convidativa cama de hospital ao lado de uma neo-mamã senegalense rodeada pela sua família numerosa. O terror invade-me. Se há coisas para as quais não estou preparada no momento é ter que afrontar público, olhos  curiosos ou indiscretos. Passa das 22h00 e o Cesco sai em busca de jantar. Naquele quarto cheio de gente que come comida com perfume de outros continentes a solidão invade-me como uma mão pesada e sufocante sobre o ombro. O buraquinho do meu saco amniótico era tão pequeno e as minhas contrações tão insignificantes que as obstetras e a ginecóloga estão convencidas que daí a umas 12 horas terão de me induzir o parto. Com a indução do parto lá se vai o meu “percurso de parto doce”, com o super apartamento com banheira de parto, atmosfera íntima e aconchegante. Não é exactamente o início que eu tinha desejado.
Finalmente chega o Cesco e com ele uma lufada de ar fresco, o sentido das coisas. A família da minha companheira de quarto retira-se. Com esta espécie de bolha de intimidade eu e o futuro pai comemos, conversamos e rimos. Estamos sempre a tempo de relativizar a questão e de troçar das nossas certezas apenas demolidas.
Mas também este momento de calor é destinado a acabar e o Cesco volta para casa.

Na minha cama de hospital, demasiado alta e estreita para me ser familiar as trevas descem de novo sobre o meu humor. Toda eu sou este coração enorme que bombeia ruidosamente, não sinto mais nada, todo o meu corpo se encolheu dentro desta muralha musculosa e incessante. O medo é tão forte (medo de quê?) que a única forma segura para o aguentar é sair dele e olhá-lo de fora, racionalizá-lo, gozá-lo um bocadinho. Chegam algumas mensagens de longe que me trazem conforto, é tudo normal, natural, regular, até mesmo o medo. Durmo quase uma hora, depois o choro do recém-nascido da cama ao lado traz-me de volta àquela cama estranha. Sinto-me exausta, esgotada, mas não consigo sequer manter os olhos fechados.

Às quatro da manhã começam algumas daquelas dores que agora sei serem contrações. Boa, penso. Ao menos é algo com que me entreter. Levanto-me e começo a andar para a frente e para trás no corredor, cronometrando as contrações e os intervalos entre elas. Sinto-me produtiva, sinto que tenho o controlo. Quando as contrações me parecem suficientemente regulares vou procurar a obstetra. Liga-me à maquineta que controla o ritmo cardíaco do Tiago e a intensidade das contrações. Ajuda-me a passar as mais fortes com palavras doces e uma voz calma, é-me preciosa a sua companhia. Depois “visita-me”: 3cm de dilatação, falta muita estrada. Como estou muito cansada, aconselha-me a ir para a cama e tentar dormir entre as contrações. São 5horas e telefono ao Cesco: começou, mas ainda vai demorar, vem com calma.

Durante um hora e meia (que sinceramente me pareceu muito menos) sinto as contrações a aumentarem “pouco a pouco” de intensidade. Forço-me a recordar todas as técnicas aprendidas no curso pré-parto: respiração, vocalização, visualização… em muitas contrações sinto-me completamente perdida, alienada, era só aquela dor alucinante que me domina o corpo e me empurra a cabeça para trás, como se tivesse necessidade de se separar do resto d corpo (merda, que ideia tão estúpida esta de não querer a epidural!). Às vezes o controlo volta, em lampos de lucidez, e por momentos acalento a ilusão de poder controlar a dor, vergá-la à minha vontade. Às tantas vejo-me chegar ao meu limite, vi-o nitidamente diante de mim e ligo às obstetras: não consigo continuar sozinha (murmurei ou gritei?).

Chegam três obstetras que eu não conheço (era a mudança de turno) e contemporaneamente o Francesco. Volto a sentir um grande alívio. As obstetras falam um bocadinho comigo e voltam a sair, voltarão um pouco depois para ver como estou (havendo 3cm de dilatação há apenas uma hora e meia, a experiência diz-lhes que ainda falta…).
A par com as dores invade-me um calor insuportável, não consigo suportar encostar-me a nada e nem mesmo uma carícia. Volto ao corredor, desta vez com o futuro-pai ao meu lado. Durante as contrações apoia-me fisicamente já que é impossível manter-me em pé, mas não há muito mais que possa fazer. 

De repente tenho uma vontade monstruosa de ir à casa de banho. Amaldiçoo esta partida da natureza, que raio de momento. Assim que me sento na sanita e tento chamar a mim as poucas reservas de capacidade de raciocínio que ainda tenho (não era uma situação fácil de gerir) apercebo-me que não era vontade de ir à casa de banho, era o Tiago a querer sair. A minha cabeça grita impossível (sei que ainda faltam tantas horas!) e consigo pedir ao Francesco para chamar as obstetras com urgência. Chega uma imediatamente que me controla o colo do útero: estás pronta! Não é possível, exclamo, desta vez em voz alta, quanto tenho de dilatação? Tudo, dilatação completa minha querida, vamos para a sala de parto.

Apesar dos meus protestos intensos a obstetra e o Francesco conseguem meter-me em cima da minha cama. A esta altura todas as noções de pudor se tinham completamente desvanecido e eu estava pronta para atravessar os vários corredores nua tal era o calor que tinha. Lá aceitei que me cobrissem o corpo com um lençol e daí a pouco estava na sala parto com a obstetra a tentar convencer-me a ir para o banco holandês (para quem não faz ideia do que isto seja: http://www.mipaonline.com/wp-content/uploads/2012/07/sgabello-olandese.png) enquanto eu resmungava que não queria sair da cama. A obstetra era boa, e lá me deu a volta. Sentei-me no banquinho, apoiada nas pernas do Francesco que estava sentado numa cadeira atrás de mim. E lá vou eu. Nem queria acreditar. As dores acalmaram um bocadinho, não que não doesse, mas agora as contrações eram acompanhadas pelo enorme esforço de empurrar e isso de qualquer maneira aliviava-me.

Muita gente me disse que no momento do parto, saber que o teu filho está a chegar é uma grande alegria que ajuda a passar o momento. Muito sinceramente, naquele momento eu estava-me a marimbar para isso. Empurrava para que tudo acabasse, para poder beber um copo de água e dormir um bocadinho, não me importava nada do garoto.
Até que ele saiu, cinzento, resmungão, de braços e pernas abertas como um esquilo voador, e a obstetra mo pôs assim como veio ao mundo em cima da minha barriga. O mundo parou. Senti que era uma espécie de máquina fotográfica e que as minhas lentes e diafragma se reajustavam. Uma injecção imaginária de energia e repouso fez-me relaxar de um modo incrível, como se alguém retirasse de cima de mim aquele cansaço dorido e insuportável. Não era horrível. Não era feio. Não era nada do que eu esperava, e era o meu filho – eu tinha um filho! Demorei algum tempo a “voltar” à sala e a perceber o que se passava à minha volta. A obstetra conduziu-me para uma marquesa – sempre com o meu filho – onde me tirou a placenta e deu os pontos. Foi uma dor horrível, mas eu desprezei-a.

Meteram-me noutra cama e, por duas horas, com o Francesco em êxtase ao meu lado, fizemos o primeiro “pele-a-pele”, a primeira mamada e eu tornei-me mãe. E desde esse momento até agora, se me permito de pensar muito nisso, não consigo evitar as lágrimas de alegria, medo do futuro, incrédula admiração por esta magia poderosa.

Bem vindo Tiago.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

O Dia Antes



Domingo 12 de Maio começam os primeiros sinais por mim perceptíveis de que o parto se aproxima. Passo o dia em casa a experimentar as várias posições de trabalho de parto, para mim é praticamente um jogo experimentar as várias posições e ver como me sinto em cada uma. A barriga parece que rebenta. Sinto-me muito vaidosa desta barrigona, lançada para a frente como uma bandeira soberba, há um pouco de Vénus de Nilo em mim, esta barriga faz-me sentir poderosa, apesar de já não conseguir calçar umas botas sozinha.
Embora pesada, sinto-me excitada e energética, com vontade de arrumar, organizar, passear; passeios curtos, porque a minha autonomia só me permite fazer caminhadas de meia-hora, depois é preciso repor energias.

Algo me diz que se aproxima o grande dia, uma espécie de sensação omnipresente, mas não tenho pressa. Talvez por não me sentir realmente pronta, talvez por sentir já uma certa nostalgia pelo fim da gravidez que foi sem dúvida um dos períodos mais belos da minha vida, um verdadeiro estado de graça. Sinto-me sempre assim nos momentos de passagem, curiosa e ansiosa pelo porvir, nostálgica pelo que deixo para trás.

Na segunda volto a sentir aquelas dores manhosas que já sei serem contracções. A médica manda-me ao hospital fazer um exame just in case. O serviço é de uma eficiência impressionante: em 10 minutos estou na posição ginecológica (eufemismo para deitada-numa-cama-de-hospital-de-pernas-abertas) e uma médica desconhecida escarunfa-me como se eu fosse um carro na sucata e ela um mecânico com mais que fazer. 

Em certos serviços de saúde não somos mais do que maquinaria estragada, corpos desprovidos de humanidade. Voltei a casa com boas notícias que sabiam amargas na boca: tudo ok, volta daqui a duas semanas quando começar o “trabalho”.

Na quarta-feira abro o processo clínico nos dois hospitais onde poderia ocorrer o parto: aquele mais “médico” e perto de casa, e aquele mais “humano” onde se tudo corresse bem e gostaria de escolher. Estes pequenos procedimentos burocráticos sabem-me a despedida, sinto o meu pequenote que se gira e regira na barriga e sei que nunca mais serei capaz de o proteger assim tanto, ao mesmo tempo sinto os seus pés que barbatanam na parte de baixo à direita da minha barriga e não vejo a hora de os ter na mão, dar-lhes uma trinquinha amorosa.

O meu corpo diz-me que algo está estranho, pequenas perdas de líquido que me parecem urina – terei alguma espécie de incontinência gestacional? O tratamento “simpático” no hospital ao início da semana desencoraja-me de voltar ao hospital, não tenho energias para ripostar.
Na quinta vem uma amiga de longe a Siena, almoçamos, passeamos, e escondemo-nos da chuva comendo um gelado: limão e café como sempre, tiramos fotos. Aquelas perdas estranhas continuam, vamos lá outra vez ao hospital, mas ao outro, de que gosto mais, não vá o diabo tecê-las. E já agora, vamos meter as malas no carro.

Felizmente o acolhimento das obstetras é caloroso e com sorrisos legitima a minha preocupação: as membranas romperam-se, felizmente pouquinho. Tenho que ficar no hospital e começam os exames de rotina. Sinto-me descontraída e bem-disposta mesmo quando me dizem que provavelmente terão que me induzir o parto no dia seguinte se o trabalho de parto não começar espontaneamente. Metem-me no meu quarto que devo partilhar com uma mãe com um neo-nato do dia anterior. O quarto ainda está cheio dos seus parentes, e quando o meu companheiro sai para ir comprar o jantar uma ansia terrível invade-me: acabei de me aperceber que o mandarão para casa, que ficarei ali sozinha, e que estou para ter um filho.

domingo, 5 de maio de 2013

Gravidez e Género

Reflexões do Dia da Mãe

Quando o ginecólogo me disse que o meu feijão era macho (um ginecólogo particular, tipo um Dr. House da ginecologia), a minha reacção foi: que raios faço eu com um garoto? A quem passarei a minha colecção de brincos, a minha sabedoria “feminina” e todo o meu imenso mundo de “orgulho feminino”? É claro que é o tipo de crise que passa depressa, em dois dias já tinha mudado todas as minhas frequências mentais e descoberto todas as “vantagens” de meter ao mundo um garoto.

Tínhamos partido com a ideia de manter o sexo do feijãozito em segredo, mas depois não encontrámos nenhum motivo realmente convincente para o fazer e a vontade de compartilhar levou a melhor, e eis-me a responder às perguntas dos amigos-conhecidos-desconhecidos: é um “macho”.
Depois de ter sobrevivido aos ataques de festinhas à barriga, aos inumeráveis conselhos sobre onde e como parir, às intermináveis descrições de partos-monstruosos-que-mais-parecem-torturas, às considerações sobre o que comer e o que não comer (vais mesmo beber esse café? Olha que faz muito mal ao teu filho) e às mais variadas teorias sobre o significado da forma das barrigas; nada me tinha preparado para o rol de reacções que a comunicação de ter um filhote macho comporta.

Salva a possibilidade de que as pessoas para serem simpáticas te digam que o que te calhou em sorte é o melhor possível, a verdade é que a maioria das pessoas duplica os “parabéns” quando sabe que estás para parir um macho. Estes parabéns depois são normalmente associados a frases do tipo “ah, óptimo, bom trabalho”, “muito bem”, “oh! Óptimo, os rapazes são muito melhores!”, ou então “que sorte! Os rapazes são muito mais ligados à mãe, vais ver que te tratará como uma princesa”. Também existem as versões “negativas” ou seja “oh, que sorte, as raparigas dão muito mais trabalho”, ou “ boa, as meninas são muito piores” ou “é melhor um rapaz, as miúdas têm menos afinidade com a mãe”. A ÚNICA pessoa que me sugeriu que teria sido melhor ter uma miúda usou o profundo argumento de “não é mal, mas os rapazes são do mundo, ao menos as garotas ficam connosco”.

Bom. Agora já estou “habituada”, que é como quem diz que estes maravilhosos incentivos me entram por um ouvido e me saem por outro, mas considerando que a grande maioria destas pérolas saem da boca de mulheres, não deixa de me entristecer que existam tantos exemplares de fêmeas com um orgulho próprio tão baixo para considerar – e dizer – que ter um macho é melhor.
Eu pessoalmente sinto-me profundamente ofendida por esta visão. Não ofendida com estas mulheres em particular (talvez porque a única maneira de superar estes comentários seja “despersonalizar” estas mulheres e metê-las em gavetas classificativas), mas ofendida com a sociedade que faz estas mulheres pensarem e sentirem deste modo sem sequer refletirem sobre as implicações daquilo que estão a dizer. É óbvio, é uma sociedade preparada para acolher as miúdas com alegria e amor, sem lhes reservar o destino da desilusão familiar como acontece noutros países do mundo, ou nos nossos países noutros tempos. Mas ainda assim a reacção primordial (em tanta gente) é aquela de valorizar a chegada de mais um macho em relacção à chegada de mais uma fêmea. Como é triste constatar esta preferência social, este favoritismo, principalmente quando parte precisamente da parte de mulheres! 

E isto é uma das coisas que me entristece em particular, que tantas mulheres ainda sofram de um complexo de inferioridade social, que as faz, por exemplo, preferir ter um filho macho porque as tratará melhor e porque lhes dará menos preocupações (quando chegar aos 15anos, intenda-se).
Enfim. Relato um conjunto de experiências muito concretas e particulares, que não podem ser obviamente generalizadas e cuja única importância é aquela de fazer-me reflectir como, ainda hoje, tantas mulheres são os grandes vectores do machismo social, no modo como se exprimem, como educam os filhos, e como aceitam papéis cristalizados de género para não ficarem sozinhas ou para não serem “estranhadas”.

Sempre fui da opinião que o machismo é uma característica sócio-cultural que não pode ser só considerada culpa do homem, mas que sobretudo é uma “culpa” (não seguramente no sentido católico) da mulher. Concordo com Augusto Boal que defende que o combate à opressão deve estar nas mãos do oprimido e do mesmo modo o machismo como forma de opressão social deve ser recusado e combatido principalmente pelas mulheres (e não só, até porque estou convencida que o machismo comporta consideráveis desvantagens também para os homens, mas isso é uma outra história).

Tive sempre a sorte de estar rodeada por homens não machistas, e no meu círculo social prevalecem as mulheres auto-determinadas e que recusam a prisão dos estereótipos de género cristalizados, mas apercebo-me que em tantas pequenas coisas – para tanta gente – ser homem ou mulher ainda é determinante para uma definição dos papéis sociais e familiares não só a nível diferencial mas, sobretudo socialmente hierárquico.

Estou orgulhosa de esperar um filho, e estaria orgulhosa se esperasse uma filha. Mas concretamente a única grande vantagem que vejo neste momento em ter um filho, além de que provavelmente me gastará muito menos dinheiros em artigos de higiene, é saber que ele – em comparação com uma filha – terá um pouco mais de facilidade de integração social pois chegará a uma sociedade feita à sua medida e que não o carregará à partida – só pelo seu sexo – de uma enorme quantidade de complexos e imagens sociais de inferioridade que terá que combater toda a vida. Mas espero ser capaz de educar um filho que um dia fique tão feliz por ter uma filha como um filho e que não tenha nos seus critérios de selecção de companheira o “ser capaz de tratar de uma casa”.